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A difícil arte de brincar

  • Apr 4, 2017
  • 3 min read

Era uma vez... era tanto... que sei foi e acabou.  Agora é hora de dormir.  

Ao longo de anos (muitos anos), foi-se construindo um discurso sobre o brincar que o enquadra como atividade secundária, considerada “não séria” pelo adulto. Esta ideia alinha-se com uma forte preocupação contemporânea noque concerne ao desenvolvimento de habilidades tanto acadêmicas quanto profissionalizantes na preparação do infante para um tal de futuro. Contudo, contanto, todavia, deixando a ansiedade de familiares e educadores entre parênteses, alguém consegue assertivamente dizer como será o futuro quando nossas crianças forem adultas? Posso dizer que boa parte dos filmes futuristas da minha época de criança/ adolescente (e isso tem tempo) erraram no mínimo o time.  

Como minha bola de cristal é de brinquedo, posso falar do hoje. E atualmente vemos agendas infantis tão atribuladas quanto a dos respectivos pais, que, por sua vez, naturalizam essa realidade. E, nessa roda viva, as crianças, vezes por sua pouca autonomia, são induzidas a vivenciarem o mesmo. Muitas escolhas são feitas a partir de uma visão adulta daquilo que é ou será importante para o filho, por expectativas futuras, mas sem escutar e observar a vontade, as necessidades, as características e o contexto desta mesma criança. Assim, o adulto sabe o que é melhor, a escola sabe o que é melhor, o primo de segundo grau sabe o que é melhor... enquanto o protagonista mirim torna-se um participante "café com leite" da sua própria agenda. 

Sem retirar a importância de atividades extracurriculares, pois não estou pintando o mundo de algodão doce e desvinculando a criança do campo – pelo contrário, o objetivo é ampliar o olhar e perceber que a criança é ativa e protagonista de sua história – mas diante de tantos compromissos, do corre-corre diário presente na rotina de parte dos pequenos cidadãos, onde encaixa-se a livre brincadeira? Onde fica a criatividade e espontaneidade tão presente na lúdica expressão infantil? Na construção do mundo contemporâneo, dos parâmetros do certo e errado, muito tornou-se renegada a hora do recreio.

Felizmente, não é de hoje a compreensão (pelo menos a compreensão) de que a brincadeira é de extrema importância para a criança, inclusive como base e recurso para o desenvolvimento cognitivo. Tanto, que é enfatizado nas próprias propostas educacionais do nosso pais, com reconhecido valor aqui e acolá. Porém, na prática verde e amarela (e de muitas outras bandeiras) não vemos muito sua aplicabilidade. Sua desvalorização ainda ocorre por julgamentos de pouca serventia, de ser simples fonte de prazer.

E partindo da própria preocupação dos pais com a aquisição do conteúdo pedagógico, é exatamente pela natureza do brincar ser fonte direta de prazer, que a aproximação desta linguagem infantil com os espaços educacionais valida o entendimento de que o aprendizado realizado com motivação e interesse gera um resultado mais sólido. E além disso (muito mais além disso), o brincar é o verbo da criança. Por ele, a criança experimenta o mundo: conhece, enfrenta, interage, cria, flexibiliza, etc, etc, etc... E sim, é fonte de bem-estar. Algo que nós adultos deveríamos nutrir mais em nossas vidas.

Muitas vezes, adaptamo-nos passivamente a realidade, perdendo a espontaneidade e funcionando de forma estereotipada. Viramos repetidores de papéis. Assim, ao apressar a infância e encurtar os espaços para a criança livre expressar-se, limita-se também seu potencial criador de explorar novos caminhos, de crescer saudavelmente. Brincando ela aprende e apreende o mundo de forma nutritiva. O mundo torna-se dela.  

Quanto mais a criança puder desenvolver e experimentar este mundo de forma variada, através das suas funções de contato, maior serão suas possibilidades de ajustamentos saudáveis. Para isso, os outros atores do campo, além da criança, precisam estar implicados, oportunizando esta experimentação do mundo de diversas formas, recuperando, inclusive, o brincar em espaços considerados “sérios”, como a escola.

Enfim, vamos brincar. 

 
 
 

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